A Missão Roomate (ou um recado para meus pais)

E, um dia, eu acordei em Buenos Aires, buscando apartamento, me surpreendendo com os preços, tentando alugar um lugar sem ter um trabalho no país, sem ter comprovante de pagamento, sem ter garantia proprietária, sem ter visto permanente, fazendo malabarismo pra explicar que tudo isso é porque cheguei faz pouco tempo, mas que essa semana mesmo já tenho o visto, que tenho o dinheiro pro aluguel pelo trabalho que eu tinha no Brasil e que eu JURO, eu JURO que VOU PAGAR.

Em vão. O máximo que eu consegui foi ser mal-tratada pelo cara da imobiliária, que duvidou da minha nacionalidade e disse “É, não sei.. seu sotaque é bem de italiana.” – what? (No mínimo engraçado, visto que o taxista duvidou também, mas disse que eu tinha sotaque de americana. Sou uma Ítalo-Norte-Americana com quadril de parideira.)

Tudo bem que já passei algumas vezes pelo “Ahh! Você é a brasileira? Queem diria!” porque é, eu não sou morena, alta, bonita e sensual. Mas acho que me mandar um ~fala uma frase em português então, ô brasileira!~ era desnecessário.

O Wellington, simpático corretor da imobiliária onde aluguei meu apê em São Paulo, me defendia do zelador que entrava no meu apartamento sem permissão; desentupiu o ralo do apartamento com 4 meninas de cabelo comprido (eca eca eca!); trocava lâmpadas; arrumou o registro do banheiro de visitas e mandou um pedreiro trocar o sanitário do banheiro de empregadas.
Ele me encontrava na rua e perguntava da minha faculdade, dizia que tinha a mesma idade da filha dele e me cumprimentava com abraço.

O cara da imobiliária daqui me disse “Nesse país, você não é ninguém.”

E aí eu saí de lá chorando.

É isso. Descobri que eu sou uma bunda mole, que aguenta desaforo, pede desculpas e sai chorando. (ou, aparentemente, quando você tá começando sua vida adulta, você volta a ter 12.)

Por fim, como é muito difícil alugar sozinha porque pedem a maldita da garantia proprietária na Capital (tipo, é, eu sou estrangeira, tô vindo pro seu país agora, tenho uma casa aqui, mas quero alugar um apartamento JUST FOR THE LOLS…), resolvi buscar apartamento dividido com outras pessoas.

Acontece, que nesse mundão existem muitas pessoas bizarras interessantes… então estava meio difícil escolher o companheiro de apartamento ideal. Estava entre:

- Fabian, o cara que, como foto do anúncio, colocou uma 3×4 com cara de maníaco num fundo vermelho;
- Daniel “Activo. Muy profesional.” – protegendo meu cu em 3…2…
- Viviana, cujo apartamento é, segundo o anúncio, pra dividir com ela e 3 gatos. Podemos ver a simpatia da pessoa com a frase “Se você é alérgico ou não gosta de gatos, este anúncio não é pra você.”
- Rafael, o cara que deve ter vivido com alguém muito porco pra colocar na descrição “Procuro alguém descomplicado e liimmmpoooooo……..”
- Gabriel, que procura “Persona que necesite habitación y se comunique. No importa sexo…” e me deixou bem confusa… Não importa meu sexo ou não importa se eu for morar com você e não pagar com o corpo, só com dinheiro mesmo, contanto que eu converse com você?
- EL TIGRE. – Dispensa comentários. RAWR!

Ou com o…:

- Loiro Grisalho, o senhor de 55 anos que colocou na descrição que deveria ser sobre o apê:
“Sou alto, 1.78m, magro, ~buena presencia~, educado, responsável e de bom trato, acompanhado de uma foto dele com a mão nas cadeiras, encostado numa varanda, armado de seu olhar 43.

Minha impressão sobre esse site de companheiros pra dividir apê? Deveriam dar suporte emocional pras pessoas. Sério. Eu fiquei extremamente chateada quando entrei em contato com alguém e a pessoa leu e ignorou minha mensagem. Fico pensando tipo.. o que eu tenho de errado pra você? Me fala, cara, talvez a gente possa se entender. Não me ignora… ME AME!

Tipo o Eduardo, que não me aceitou só porque quer compartir o apartamento com alguém que seja homossexual. Pensei até em pedir carta de recomendação pras amigas bees.

Mas aí apareceu o Sebastian, que divide apê com o Martin e o José. São equatorianos, vivem aqui há alguns anos, se conhecem desde… muito tempo. Têm entre 23 e 26 anos. O Sebastian e o Martin tem uma banda de Salsa, o José faz psicologia. São três caras bem legais, o apê é graaaande, tem 4 quartos, cozinha, banheiro social e banheiro de visita e a sala tem até uma sacadinha! O quarto disponível tem uma janela que vai até o chão, o apê já tem tudo que se precisa numa casa, todos os móveis e, a única coisa em discussão é se vão ou não juntar grana pra comprar uma tábua gigante e colocar em cima da mesa que está na sala, pra fazer uma enorme mesa de ping-pong.

Assim que, na verdade, esse texto foi todo um pretexto pra falar que…

Pai, mãe… Estou indo morar com 3 equatorianos em Buenos Aires. Eles são bem legais, eu juro. Não surtem. Mudo semana que vem e meu quarto é lindo. A Tatá apoiou a ideia. Amo vocês.

Buenos Aires, Malos Xavecos

Dois meses em Buenos Aires e AGORA eu me sinto a vontade pra começar a falar sobre como é estar aqui. E começamos pela parte que é mais interessante: baladas, festas e paqueras. (ui)

Vou ser bem sincera: eu não achei que teria tanta mudança cultural… E o problema está justamente nisso. De tanto achar que não tem mudança cultural, tá difícil entendê-las.

Aí acontecem coisas como andam acontecendo nos bares, onde as minhas cantadas vão de mal a pior.

Primeiramente, gostaria muito, MUITO de entender por que DIABOS os argentinos pedem o telefone igual, sei lá, um monte de carpa pedindo migalha de pão em rio raso. Sério.

Os caras chegam, falam 5 minutos comigo na balada e pedem o telefone.

Mas isso não é o pior, o pior é que eu já sei a sequência de frase que vem, manja?
- Ahhh então você é do Brasil? FALA BRASILEIRO? [não sei pq eles acham que no Brasil a gente fala brasileiro, mas okay, você é gato, eu deixo ser um pouquinho tapado.]

Na sequência, vem a frase:
- Posso ser seu guia! Buenos Aires é beeem grande, certamente tem lugares que você não conhece.
E, por fim:
- Me passa seu telefone! Aí a gente combina esse tour ou sai pra tomar um café.

Então, eu comecei a achar que os argentinos vão pra balada pra catalogar telefone. Devem marcar meu telefone como “Maira A Brasileira Vem Sambar Aqui Ó”.

Respondendo na mesma moeda, eu comecei a catalogar os caras.
So far, temos essa agenda:

“Jennifer Aniston”, querido argentino piegas que me manda foto no Whatsapp abraçando um filhote de cachorro e pedindo pra eu ~dar um nome~ pro ~bebê~, que me manda mensagem de bom dia e que diz amar filmes românticos.

“Sidney Magal”, o moço bonito e de olhar sedutor, que nasceu num povoado de 5 mil pessoas e mudou pra Buenos Aires há alguns anos mas vive uma vida cigana e me chamou pra um café 6 da manhã depois da balada. E eu fui, porque topei achando que era blefe.

“Sem Pegada”, o lindo tudibom com profissão exótica, por assim dizer, que luta e dança tango mas que é tão delicado que chego a pensar que esse Ken é Barbie.

“No Paul”, o cara que eu puxei conversa perguntando o que achava do presidente do Uruguay e que, ainda assim, me manda mensagens convidando pra jantar, sair, dançar, tomar café, passear, maaas que não tem facebook, logo, não tem fotografia na internet e que me deixa com uma leve lembrança de que ele não parecia o Paul McCartney, o que reduz a minha atração por ele.

“Ariel-por-que-não?”, aaaah o Ariel. Rapaz rápido, lindo, que só me disse “Anota meu telefone aí e me liga pra gente sair pra tomar um café.” e foi embora. (se eu tomasse todos os cafés que esses argentinos me convidam, teria insônia por 5 anos). Eu nem conversei com ele, mas era bonito e foi direto. Marquei como “Por que não?” porque vai que bate a solidão, né?

“O Mecânico do Desperate Housewives”, mecânico lindo, louro, sarado e sedutor cujo cinto da calça jeans abriu enquanto dançava cumbia comigo e ficou todo sem graça e me disse “Espero que alguma vez isso tenha acontecido com você no Brasil”. Tadinho. Felizmente pra mim e infelizmente pra ele, nunca tinha acontecido.

E, por fim, temos o:
“Não Responder”, o maluco que pegou meu telefone com a amiga boliviana bacana que estava passando uma noite em Buenos Aires e ia pra São Paulo no outro dia trabalhar como tatuadora na Galeria do Rock porque estava fugindo do marido louco que batia nela. Ou seja…

Observação: todos dançam cumbia, aparentemente.
Observação 2: seguindo a lógica, fui a um bar de cumbia me enturmar e me passaram a mão na bunda.
Observação 3: se eu fosse homem, terminaria a observação anterior como a música dos Mamonas mesmo. Sim, eu sei que vocês pensaram nisso.

As pingas e os tombos

Há muito tempo as pessoas me dizem que eu tenho muita sorte. E eu sempre concordei com elas, rindo dos supostos acasos que me levavam exatamente pra onde eu queria ir.

Mas deixa eu contar uma coisa pra vocês: sorte não existe. O que existe é você fixar a sua cabeça de uma forma muito forte num sonho/objetivo e dançar quando a música tocar. E aí vem o maior segredo: mesmo que você não faça a mínima ideia de como se dança.

Em 2006, um namorado me sugeriu fazer um blog. EU escrevi e escrevi, li outros blogs e fui me conectando com pessoas, conhecendo um novo universo, onde fiz amigos que nunca teria feito se não saísse do meu mundinho do interior.

Em 2007, um desses amigos me arrumou o msn do chefe dele numa agência de mídias sociais, em São Paulo. EU falei com o chefe e ele me pediu pra fazer uma estratégia publicitária e apresentá-la numa entrevista. EU estudei um bagulho que nunca tinha visto por duas semanas, montei a tal estratégia, entrei num ônibus pra sampa e apresentei a porra da estratégia gaguejando e sem saber o que caralhos eu estava fazendo ali. Mas deu certo.

Um outro amigo desse novo universo me arrumou um lugar numa república mista e EU juntei minhas tralhas e fui morar numa cidade mil vezes maior que a minha, num quarto mil vezes menor que o meu, ganhando quase nada. Almocei e jantei Cup Noodles uns quatro meses, nem posso mais ver na frente.

Durante um ano, a falta de experiência, de dinheiro e de certeza me acompanharam e trouxeram de volta a bulimia, antiga companheira da adolescência. Não sobrava dinheiro pra ver meus pais, a 150 quilômetros. Em um momento, percebi que estava tão desestabilizada que resolvi que era hora de parar, de voltar. Abandonei tudo e voltei pra minha casa no interior numa quarta-feira. Dei cem passos pra trás, que acabaram se revelando mil pra frente. Não é um erro recuar quando o avanço é um desastre iminente.

Quando achei que era hora, avisei pro mundo que queria voltar. Voltei pedindo um salário maior do que eu achava que merecia no momento, mas enfiando na cabeça que aprenderia tudo que precisasse pra merecer depois. E assim foi.

Morei num pensionato, em outro quartinho, um pouco maior que o primeiro. Meu cunhado chamava de minha “cela”. Mas aí eu já não precisava mais viver de Cup Noodles.

Sobre os degraus que sempre me disseram não passarem de oportunismo: eu usei todas as minhas armas. Eu escrevia pra quem queria ler e posava pra fotos pra quem queria ver, por que não? Eu vivo num mundo onde a paranóia da estética perfeita me fez vomitar comida por quase 15 anos e me achei suficientemente dona do meu corpo para mostrá-lo, quando me pareceu conveniente.

Meus pais? Repudiaram. Mas a foto na capa chegou em algum lugar, onde alguém quis conhecer a cabeça da dona dos peitos. E, mais uma vez, de alguma forma, deu certo.

Pra quem sempre me pergunta “como???”, aí está: eu simplesmente FIZ. Sei lá, fiz tudo que a vida me colocou no caminho. Com medo, todas as vezes, mas FIZ. Fiz um blog, expus meus sentimentos, minhas fraquezas, fiz contatos, fiz entrevistas pra coisas que eu não sabia fazer, fiz o trabalho que me mandaram sem saber fazer, fiz fotos sem me achar digna da publicação delas, fiz teste de tv sem saber fazer tv e acabein indo pra outro país pra fazer tv REALMENTE sem saber. Se deu errado, deu em nada, ao menos sempre deu em lição. Pra da próxima vez fazer melhor. O importante era continuar fazendo.

E o tempo todo rolavam críticas. E eu chorava, o dinheiro continuava não dando, e eu me enrolei com o cartão, e meu nome foi pro serasa, e minha família não confiavam mais em mim, achavam que eu tinha que desistir, prestar um concurso no interior, formar uma família e ficar por lá mesmo, mas eu não queria, não podia.

Eu topei participar de um game show e perdi 100 mil reais em rede nacional. Eu sabia que todo mundo podia me achar burra. Falaram que fiquei gorda na tv, a bulímica se revoltou dentro de mim.

Enfim.. gravei minha primeira matéria para A Liga sem saber o que caralhos eu estava fazendo lá. Dá pra ver na minha cara, na minha postura, na falta de jeito. Mas se alguém acreditava que eu devia estar lá, quem era eu pra não acreditar?

Então eu tenho dois recados pra quem ainda me acompanha nessa lindeza de blog que começou tudo:

1- Muito obrigada a todos vocês, sem vocês nada disso seria realidade. Portanto, vocês tem o dever de me assistir e me criticar! auahuahau

2- Você quer algo? FAÇA. Ninguém é obrigado a acreditar em você se você não mostrar que acredita em si mesmo.

Mesmo que você tenha que fingir pra si mesmo, mentir pro espelho. Faça. Depois me conta. )

Sobre Magritte, Tarkovsky e o prazer em errar

E mais uma vez eu fui conduzida pela vida para um caminho completamente novo e maluco. Dessa vez, mais madura e consciente, eu tenho noção do tamanho julgamento que me aguarda e que outrora me apavoraria.

Só que agora algo muito louco ocorre: eu não estou conseguindo me preocupar com as impressões de quem assiste de longe essa nova realidade, porque estou muito ocupada me julgando e me sentindo eufórica cada vez que descubro um defeito a ser corrigido.

Eu estou – e é isso mesmo – apaixonada pelos meus erros e deficiências.

Esses dias vi um filme que me estapeou com a melhor definição dessa porra toda que eu disse aí:

“Deixe tudo o que foi planejado virar realidade. Deixe-os acreditar. E deixe que eles riam  de suas paixões. Porque o que eles chamam de paixão, na verdade não é uma energia emocional, mas apenas o atrito entre as suas almas e o mundo exterior. E o mais importante, deixe-os acreditarem em si mesmos. deixe-os serem indefesos como crianças, porque a fraqueza é uma grande coisa e força não é nada. Quando um homem acaba de nascer, ele é fraco e flexível. Quando ele morre, é duro e insensível. Quando uma árvore cresce, é tenra e flexível. Mas quando é seca e dura, ela morre. Dureza e força são companheiros da morte. Flexibilidade e fraqueza são expressões de frescor do ser.” (Stalker – de Tarkovsky, 1979)

Depois de uma certa idade, é muito mais comum (e CÔMODO) olhar pra um novo desafio com pânico do que enxergá-lo com a empolgação de uma criança que compra material escolar novo e chega no primeiro dia de aula, com aquele frio na barriga, mas querendo que tudo aconteça logo. Querendo conhecer os professores, os futuros amigos, querendo abrir o caderno e usar as canetas novas, querendo absorver a matéria e tirar um dez na prova final.

Meu caderno e minhas canetas são minha voz e minha imagem, minha prova final é sentar no sofá e ver na tela da tv algo do qual eu mesma me orgulhe.

Essa falta de medo me lembra um outro maluco que anda pelos becos das viagens existenciais comigo há algum tempo: o mano Magritte, que um dia falou da “ruptura com o conjunto de absurdos costumes mentais que geralmente ocupam o lugar de um sentimento autêntico da existência”

Meu sentimento autêntico da existência é viver o sentimento de criança no primeiro dia de aula. O conjunto de costumes absurdos é eu foder com um processo de aprendizagem, concentrando energia no que os críticos de sofá vão falar de mim.

Ainda no role Magritteano, cito que “a imbecilidade consiste em crer que compreendemos o que não compreendemos”, uma versão mais violenta do só sei que nada sei. De qualquer forma, ambos vão direto e reto no cerne do meu momento. Porque é nada sabendo que eu vou aparecer na casa de vocês toda terça, às 22h30, no programa A Liga, na Band, falando umas abobrinhas, perguntando, chorando e vivendo ligada em 220 até entender um pouco mais da vida. E já aviso que vou ter olheiras. Cansei de ser sexy, internet.

Eu sei, eu sei, faz três meses que eu não atualizo e daí eu apareço com essas balelas. Mas esse é meu diário né. E na verdade, é tudo pra tentar dizer pra vocês que o medo, na verdade, está sempre lá tipo uma furadeira na cabeça, mas, finalizando a sessão quotes: “a coragem é a resistência ao medo, domínio do medo, E NÃO A AUSÊNCIA do medo.”

Resumindo a merda toda: não sejam cagões. Tem muita gente que vive pra transformar a vitória alheia em chacota e nenhum deles sabe agir quando a chacota vira vitória.

Cada geração no seu quadrado

Haters gonna hate, mas a real é que eu não suporto quem fica de mimimi falando que a infância dele foi melhor do que a infância das crianças de agora.

Claro que foi. Foi a SUA infância.

É, sou de 1991 e tenho míseros 21 anos. Minha infância não foi há tanto tempo assim. Mas, na minha infância, você precisava ter muita grana pra ter videogame, computador, celular, internet e tv a cabo. E meus pais não tinham.

Meu “acesso à tecnologia” era o super nintendo com os mesmos jogos de sempre e, às vezes, um joguinho novo que eu e minha irmã alugávamos na sexta-feira, porque a devolução caía no domingo e eles estendiam até segunda. Ou, no máximo, uma fita nova que meu primo-vizinho me emprestava, quando pegava com os amigos dele.

Computador? No sir. Isso era só na loja do meu pai e para trabalho. O primeiro computador da casa foi quando minha irmã entrou no Ensino Médio. E aí a internet era discada AND cara, então era só no domingo.

Celular ganhei faltando um mês pros meus 14 anos. Minha irmã já tinha 18! Ganhamos o mesmo celular, “o primeiro com tela colorida”, segundo o meu pai.
Antes disso, nossa diversão era trocar o toque do celular dele por um monofônico “La Cucaracha” e ligar pra ele enquanto estivesse na fila do banco, só pro véio passar vergonha. A gente nem via a cena, mas só de imaginar a cara dele, morríamos de rir.

Meu ponto é: eu tinha pouco acesso a essas coisas, assim como era com a minha irmã, quatro anos mais velha que eu, ou meus primos, 5, 7 anos mais velhos. Mas quando a gente tinha, cara, era MUITO MASSA.

Minha infância foi maravilhosa. E eu me divertia muito descendo de carrinho de rolimã com meus primos e minha irmã… Tanto quanto me divertia quando a gente se juntava nas férias pra passar uma fase foda do Super Mario World.

O capote que levei com minhas 2 primas e minha irmã descendo no genial carrinho de rolimã com rodas de velotrol planejado para 4 pessoas que meu primo criou está guardado na minha cabeça com o mesmo carinho que guardei o tilt no videogame logo depois de fiiiinalmente passar aquela fase desgramada do mundo especial, a “Tubular”, porque pulamos demais e trombamos com o console sem querer. Foi uma tragédia.

Nossa infância vai ser sempre maravilhosa. As crianças de agora não vão se arrepender de nada. Eles vão se divertir com as coisas novas que vão aparecer e lembrar com carinho das antigas.

Ou será que a emoção de jogar um Wii ou um Xbox com Kinect pela primeira vez foi só minha?

E, quem somos nós para falar deles?! Com a minha idade, minha mãe estava casando com meu pai e planejando uma vida inteira. E eu não sei nem o que vou fazer daqui um semestre, quando acabar a faculdade. Eles compravam móveis para casa. Eu comprei um tablet.

O que eu vejo? Um monte de marmanjo de 30 anos SE DIVERTINDO HORRORES com um aplicativo para iPadPodPhone e reclamando de crianças que jogam joguinhos.

Se temos direito de reclamar da infância que essas crianças de hoje levam, acho que nossos avós tem também o direito de reclamar da nossa. Ou mesmo da nossa vida atual, né?

Alguém se arrisca a perguntar pra minha avó, que casou com 17 anos (porque o pai dela ia mudar de cidade e era mudar ou largar do namorado), lavava roupa no riacho e estendia na grama e limpava a casa da sogra subindo em banquinho pra limpar no alto, mesmo grávida de 8 meses, o que ela pensa da vida que levamos agora?

I don’t think so.

Maira @ USA Parte II

Segue mais um email enviado pela dona paçoca menor, sobre suas aventuras lá nas gringa:

Em nova york, ficamos em dois hotéis: no primeiro, posso dizer que a foto era exatamente igual a realidade… Mas ocultaram que a realidade era para anões (ou Mirians). O quarto tinha UMA cama, e o box do chuveiro era de vidro, de frente pra cama. Quarto de motel define. Na porta, estava escrito “como se divertir: entre no quarto, feche a porta, entre debaixo do lençol e divirta-se!”… Quédizê, tenho cara de lésbica agora.
Fizemos um código de honra lá, enquanto usava o banheiro, a porta com vidro fumê cobria o vaso sanitário, pq eu não sou obrigada a ver ninguém cagando.
Nesse hotel, tinhamos uma belíssima vista diretamente pro terraço do terceiro andar.

Saí comprar leite. Comprei uma garrafinha de 200 ml e um achocolatado e fiquei feliz. Daí cheguei no hotel, fui tomar meu leite e adivinha! A porra do achocolatado não era uma lata normal. Era uma merda de uma lata que pra abrir, precisa de abridor!
Enfiei a lata de volta na sacola e fui lá trocar, pensando no meu discurso no caminho. Aí comecei a pensar: “e se esse cara nao trocar a lata. Esse cara não vai trocar a lata. Esse VIADO vai me deixar com uma merda de lata fechada e eu não vou tomar meu leite”. Aí comecei a chorar. Liguei pra mãe e falei que eu era uma burra e que não podia nem tomar leite. Ela mais ou menos me mandou me recompor e trocar a merda da lata.

Daí tivemos que trocar de hotel, e nosso novo hotel fedia cigarro e tinha um delicioso bolor no frigobar.
Dessa vez ficamos no 11o andar \o/ com uma linda vista pro muro do hotel do lado. Daí eu desisti de ter uma vista bonita alguma vez na vida e fui mais feliz.
Tivemos que comprar botas de pelo por dentro, porque tava mtoo frio e eu estava prestes a perder a ponta do meu dedão. Sério, tava preta.
Na rua, na frente do Guggenheim, um casal chegou perto da gente e disse “hmm.. Can you please take a picture?” e a Carol lá “Sure, sure!” e aí o cara disse “Try to… Éé…to show de Guggenheim”.

Mano, esse “éé” não me engana. Americano não fala “é”. Latino não fala “é”.

E eu “Where are you from…?” e eis que o cara me solta um “Brrrazil!”. Óbvio. Aí falei “Então pode falar em português!” aí rolou aquele momento “eeeeee conterraneos!” que durou 5 segundos porque nosso onibus chegou.

No Starbucks, um casal olhava pra mim e pra Carol e tentavam adivinhar de onde a gente era. Chutaram Rússia, França, Holanda e ficaram com França. Eu tava quase levantando e falando “ok, one chance! Listen to me: veeeeeem pra ser feeeliz!” enquanto dançava com os peitos de fora.

Na noite da véspera do Natal, tudo fechou. Tudo. Daí quando vimos que estava tudo fechando saímos correndo que nem loucas pra comprar coisas de necessidade básica: água, leite, absorvente e um alicate de unha, porque nóis é pobre mas limpinha.

26/12: fomos embora de nova york. Ou tentamos. Acordamos cedinho pra comprar maquiagem da promoçao de Natal na Sephora e fomos trocar o alicate pq ele fechava e não abria mais. Demoramos muito nisso.
Pegamos um metrô Que ficava parando de tunel em tunel, daí perdemos o outro trem, daí chegou um outro trem, daí lembrei que não tinha feito o check in do voo, daí desesperei daí chegamos com meia hora de antecedência no aeoporto. Yay! Mas demoramos pra achar o check in. E chegamos atrasadas 4 míseros minutos… E perdemos o voo.

Eu surtei, pq tem alguma companhia que me fez assinar dizendo que pagaria uma multa mto alta pra trocar de voo, comecei a chorar, a tremer, dor de barriga, a atendente toda calma, a Carol me mandando ficar calma (ela nao sabia disso da multa) mas acabou que nao era essa companhia, a mulher ficou com dó da gente e trocou nosso voo… Pra dali 6 horas. Passamos o dia no aeroporto, mas pegamos o voo.

Chegando no aeroporto de Charlotte, onde tinhamos conexão, adivinha? Voo atrasado 1 hora. Chegamos tarde por bosta em Myrtle Beach. A tia Leila ficou feliz, pq não atrapalhamos a novela dela.

Em Myrtle Beach foi tudo bem tranquilo, pq nao tinha como dar errado. Todo mundo levava a gente pra lá e pra cá, nao tinha check in pra fazer nem nada. \o/
Daí saímos um dia, a tia nos deixou no shopping e disse “quando quiserem, liguem e eu venho buscar!”. Falei “pega o telefone da carol!” e ela disse “nao, VCS vão precisar de mim. Não eu de vocês.”

Resultado? A bateria do meu cel acabou, não sabíamos como ligar pro telefone da tia Leila, fui pedir ajuda pra um cara disse que minha bateria tinha “died” e que eu precisava de um carregador e o cara, um marroquino, sei lá, me fez uma cara de “ah, sim, sim!” me chamou, disse para eu estender a mão e ao invés de me dar um carregador, jogou uma porra de um sal na minha mão. Na minha E na da Carol. Começou a jogar água na nossa mão, falar pra esfregar, já tava achando que era pra eu rezar por um carregador e daí o cara tentou me vender o pote de sal por 80 DOLARES. Chorei, né? Ele disse que o sal era bom pras mãos, que hidratava, que cuidava. Saí puta da vida com as mãos cheias de óleo, sem carregador e xingando o marroquino e foi aí que aprendi que se eu sorrir enquanto falo “Enfia um pepino no seu cu, seu merda” vão me falar “Oh, that’s beautiful, thank you!”

Daí sei la como a tia conseguiu o telefone da carol e nos ligou. Ficamos 8 horas no shopping.

No ano novo não fizemos nada de mais… Ficamos em casa, depilamos… A tia resolveu depilar o suvaco da carol com cera quente e ela ficou cheia de hematomas.

Fui numa festa com a Paula, filha da tia, bebi um licor de mel maldito lá e ensinei todo mundo a jogar bilhar brasileiro. O mais legal: eu não sei jogar bilhar. Só lembro que eu falava “that’s the braziiiilian way!”. existe bilhar brasileiro? Foda-se. Sei que sou tão ruim que perdi no jogo que eu mesma inventei.

Enfim, hoje é dia 13/01, chegamos em Orlando depois de uma viagem de 8 horas num trem lotado.

Chegando em Orlando vi que o google maps me mandava caminhar por 17 minutos com as malas. Me recusei, e fui perguntar sobre o, saca só, SHUFFLE. Hahahahahahha. O cara me olhava com cara de “whaaaat?!” enquanto eu pedia mais informaçoes sobre o SHUFFLE pro hotel. Hhauhauauhauhauaha.

Aí ele disse “Come with me, young lady…” e me levou para uma imensa placa com os escritos “SHUTTLE”. Hahahahaha

Shuffle, sabe? Aquele tipo de carro que vc entra e ele embaralha todo mundo e vc desce num lugar aleatório.

Mas ok, chegamos no hotel, a atendente estava falando no telefone… E continuou falando no telefone… E eu fui perdendo a paciência… Até a Carol falar “O que vc está esperando?” e eu responder “Tô esperando essa vaca desligar essa porra desse telefone e me atender!”
Aí uns 2 minutos depois a mulher me atende e diz “Where are you from?” a Carol disse “Brazil!” e a mulher me solta um “Oh, enton falan brasileiro?” hahahahahahahahaha! A mulher entendia português.

Comprei os ingressos da Disney. Paguei com um rim praquele rato capitalista. Mais um pouco e eu ganhava uma faca da tramontina porque ooolha, ô passeio caro da porra! Tinha desconto pra recém-casados. Cogitamos falar que éramos casadas, já que temos o mesmo sobrenome…

Mas foi isso. Fui jantar agora e um cara passou, buzinou e me chamou de bitch. Não foi uma boa recepção.

Beijos, amo vcs e tô com saudade. )

Maira @ USA – parte I

Olá, substantivolaters! Como vocês não devem saber, a paçoca menor me abandonou neste fim de ano e foi com uma prima nossa passar o natal/ano novo/aniversário dela lá pelas terras do Tio Sam. Elas vão ficar lá até Fevereiro e a Maira ficou de me mandar notícias por email. Chegou o primeiro e, depois de quase mijar nas calças de tanto rir, eu resolvi compartilhar com vocês. Eu pedi permissão só por educação porque ela ainda não autorizou mas eu tô cagando e vou publicar mesmo assim. Segue:

(ps: não vou corrigir os erros pq ela já devia ter aprendido a digitar no celular)

Pra começar:

15/12: saimos do brasil. O voo demotooou a chegar! Mas antes demorasse mais: ficamos 12 hs no aeroporto de bogota sem internet, telefone e o q fazer. Bateu o sono, dormimos no chao. Tres vezes. O voo atrasou, so pra ajudar. Comi um cheetos bola q nao tinha formato de bola e tinha gosto de isopor Fofura.
Fui passar desodorante e nao sei se foi a pressao do aviao, sei que a esfera do meu desodorante roll on ficou no meu suvaco e o liquido caiu todo em mim.

16/12: chegamos no aeroporto jfk, onde percebi q nao tinhamos impresso o e-ticket do trem pra washington. Dai fizemos isso, pegamos metro ate a estaçao penn station, onde imorimimos nosso bilhete de trem e embarcamos. Chegamos em washington 11:30 e no nosso hotel (sheraton crystal city) ao meio dia. Fizemos check in com uma moça simpatica chamada Ebony.
Tomamos banho e saimos. Almoçamos comida italiana (ruim) num lugar que vc paga a bandeja pequena ou grande e pega o que quiser. A comida era mesmo horrivel. Apimentada, sem gosto, terribel! Dai compramos uma salada pra comer a noite. Pq ne? Ai taa mto frio e eu fui comprar leitinho quentinho no starbucks… Como sou burra, comprei um frapuccino. Nao sabia se era gelado, fiquei com vergonha de perguntar e tomei assin mesmo. Quédizé, gelou ate o cu.
Capotamos cedo e nao comemos a salada. Comprei um desodorante achando q era roll on, mas é “sólido”. É tipo um sabonete na ponta. Mas evita o sovaco preto!!!

17/12: acordamos cedo, fomos tomar cafe da manha… Comi um croissant recheado com ovo e tomate e bwcon e tinha um cafe com leite desnatado e integral (pq eu nao sabia o q era o q, entao coloquei um pouco dos 4 cafes e 3 leites diferentes. Ai comecei a cagar no pau no meu dia. Saindo de la, fomos pra downtown. Parei uma mulher ba rua e disse “hi, would you help me, please? Where is the White House?” caipira assim. Hahahahaha!
Tiramos um milhao de fotos de esquilos, do monumento de washington (que a carol fica chamando de obelisco mas acho q ta errado. Ela achava q ele era o pentagono. Isso pq nem cinco pontas ele tem.), tirei foto usabdo o obeluscopentagonowahington como espada. Passei frio. Conheci um museu maneiro latino americano e a arvore corcunda do obama (procurem ai)
Comprei uma luva quando a ponta do meu dedo ficou preta. Fiquei com medo de cair, e, como diz o Chandler, a ponta é a melhor parte, pq é onde fica a unha.
Tomei um cafe do starbucks, dessa vrz, quente.
Voltando pra cristal city, descobrimos que de uma maneira bizarra exise uma cidade no subsolo! Sim! Eh possivel cruzar A CIDADE INTEiRA pelo subsolo! Tem galerias, Restaurantes, tudo! Logo, descobrimos q tomamos um veno da porra no outro dia sem necessidade. And also desvobrimos pq nao existia pessoas na rua.
Dai fomos comer no mc donalds. A atendente me tratou mal, um soldado da guerra do vietnam bebado ficou falando com a gente e a gente nao entendia nada. A coca cola tinha gosto de torneira velha.
A noote, comemos a salada do outro dia. Cortei fora o bolor do cream cheese.
Obviamente, me deu piriri. Depois dessas comidas, nao podia ser diferente. Passei mto mal.

18/12: acordei querendo ser saudavel, pedi um troço achando q era sucrilhos, mas era um mingau fmde aveia que mais oarecia um cancer.
Saimos do nosso hotel maravilhoso e rico e viemos parar num hotel pobre. Mas esse eh bem mais legal! Tipo, no outro hotel tinha 4 travesseiros ENORMES e um edredon gordaoo… Nesse eu posso usar as pulgas do carpete como travesseiro! Mto mais legal )
Comemos no burger king.
Fui ver a arvore corcunda a noite.
Comprei ingresso pro quebra nozes np teatro warner ) e um shampoo, pq com esse frio, meu cabelo virou pixaim.

Acho q eh isso, por enquanto!

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